Relação
comercial entre Brasil e Argentina a partir do Plano Real
Gabriel Thadeu Vitorino
de Oliveira[1]
Mauricio Cassar[2]
Resumo
As relações entre Brasil e Argentina,
historicamente tem um contexto de rivalidade muito forte que prejudicam e
ajudam no crescimento econômico de ambos os países. O marco que modificou as
relações entre os dois países foi a
criação do MERCOSUL .
Anteriormente a isso, a implantação do Plano Real e a assinatura do Tratado de
Assunção foram medidas que aproximaram os dois países, que sempre foram
diferentes em suas tomadas de decisões no campo monetário, considerando que os
dois eram neoliberais.
Palavras chave: MERCOSUL, Brasil, Argentina,
Comercio, Plano Real.
1.
Introdução
Esta
pesquisa tem como foco principal as relações comerciais entre Brasil e
Argentina a partir da implantação do Plano Real e em especial a partir da
moratória decretada pela Argentina
em relação a sua divida externa. Com o objetivo de analisar as decisões tomadas
e conflitos diplomáticos que envolvem até hoje as relações com os dois países.
O
texto esta Organizado da seguinte maneira, o tópico 2 apresenta as relações
comerciais entre Brasil e Argentina a partir do MERCOSUL, explicando como se
deu a inserção dos países à criação do bloco, comentando suas diferenças
econômicas e o crescimento decorrente dessa relação. O tópico 3 enfoca um
contexto histórico de relações politicas
e comercias, contextualizando a criação a hidrelétrica de Itaipu que gerou desconfortos
entre os dois e medidas tomadas para amenizar esses conflitos diplomáticos ao
longo do tempo. Comentando sobre a relação entre Nestor Kirchner (Argentina) e
Lula (Brasil) apresentando o como era complexa sua relação que bilateralmente
era conflitante, mais multilateralmente tinham uma sintonia muito grande. Em
seguida será comentado sobre as restrições comerciais impostas pela Argentina
para dificultar a entrada de produtos brasileiros e de outros países em seu
território, e também sobre as denuncias feitas na OMC contra a Argentina e os
problemas enfrentados pelo país em relação
esse assunto. Além das perspectivas internas e externas do futuro dessas
relações. Ao final as considerações finais.
2.
MERCOSUL e a relação comercial entre Brasil e Argentina.
Na
década de 1990 o Brasil e a Argentina não compartilhavam de similaridades
econômicas. A assinatura do tratado de Assunção, em Março de 1991 na Argentina,
e a mudança do padrão monetário no Brasil com o Plano Real, em junho de 1994
deram inicio a um período estável de preços domésticos na Argentina, enquanto
no Brasil o país rumava ao encontro da hiperinflação. Esses são exemplos de
incompatibilidade econômica entre os
dois países que distanciavam seu comercio bilateral. Essas disparidades seguem
até o ano de 2001 onde a Argentina encerou seu regime de câmbios fixo, pois a
supervalorização do cambio fez com que a competitividade das empresas
argentinas aumentassem. Deixando seus produtos mais caros, que resultou em
perca de mercado nacional e internacional, arruinando sua economia e decretando
moratória (falência). O cambio Argentino em paridade com o dólar ruiu, e devido
a dividas feitas anteriormente com o FMI para manter sua moeda igualada ao
dólar, não conseguiu um novo empréstimo concretizando as tão temidas, crises de
empregos, fome e problemas políticos. Isso se deu na véspera do natal, e levou
metade da população à pobreza, causando revolta na população que foram as ruas
para protestar com o movimento das panelas. Já com o Brasil a situação foi
parecida, tendo uma absurda desvalorização do real, meses antes as eleições do
presidente Lula em outubro de 2003, porém o Brasil não decretou moratória
devido a medidas tomadas para reverter o processo de falência, tirando o regime
de cambio fixo, e implantando o cambio flutuante. Só então os dois países
dispunham de uma semelhança econômica e em politicas cambiais.
A
instabilidade desse contexto de
diferenças econômicas permeiam as relações bilaterais entre Brasil e
Argentina desde a criação do MERCOSUL.
Sendo elas visíveis em indicadores como PIB (Produto Interno Bruto).
“Outro indicador das disparidades entre as duas
economias é a taxa de crescimento anual do PIB”... “Entre 1991 e 2009, o ritmo
de crescimento da economia brasileira só foi superior ao da Argentina em dois
momentos: em 1995 e durante a fase de esgotamento do regime de cambio fixo
naquele país entre 1999 e 2002”. Todavia a Volatilidade do desempenho
macroeconômico foi bem mais intensa na argentina do que no Brasil, cujas taxas
de crescimentos variaram entre 0% e 6% nestas duas décadas.”
(Araujo Junior, 2011, p. 3,4).
É
importante entender que devido ao MERCOSUL ambos os países lucraram e tiveram
um grande crescimento no intercambio de importações de produtos
industrializados. O MERCOSUL tem uma grande importância na promoção de um
padrão comercial avançado entre países participantes do bloco. Sendo assim uma
forte fonte de desenvolvimento industrial especialmente nos dois países em
questão, dando espaço para novos investimentos, parcerias empresariais e em
inovação em âmbito tecnológico numa relação bilateral entre eles, pois o bloco
tem o intuito de maximizar suas relações
diminuindo impostos e taxas aduaneiras.
Apesar
dessa facilitação e crescimento bilateral, essa relação tem um grande empecilho
diplomático que são as restrições impostas pela argentina em ações brasileiras
em território argentino, como será visto mais a frente na seção 4 deste
artigo.
3. Evolução
histórica das relações comerciais, Brasil e Argentina.
Durante
a história, as relações entre Brasil e Argentina, tiveram uma evolução muito
complexa, envolvendo parcerias e desencontros de politicas. Uma questão
conflitante como no caso de Itaipu, um tratado bilateral entre Brasil e
Paraguai em 1975, para a criação da maior hidrelétrica da América Latina,
ocasionando problemas entre Brasil e Argentina em relação aos recursos
hídricos, com afirma João Bosco M. Machado na citação a baixo.
“A negociação em 1975 do Tratado Bilateral
Brasil-Paraguai para a construção da Itaipu Binacional marca o aprofundamento
da rivalidade político-militar entre Brasil e a Argentina, que passam a
discutir diplomaticamente as condições de aproveitamento dos recursos hídricos
da bacia dos rios Paraná-Paraguai. O processo de abertura politica dos países da região abriu espaço para maior
aproximação diplomática entre os países os países, pondo fim, com a assinatura
em 1979 do Acordo Tripartite entre a Argentina, o Brasil e o Paraguai, às
disputas sugeridas a partir de meados da década.”
“Embora criasse uma base mais promissora para o
desenvolvimento das relações entre o Brasil e a Argentina, a resolução do
contencioso diplomático entre os dois países não suscitou esforços
complementares para o aprofundamento das relações econômicas.”
(Machado, 2000, p. 63,64)
Esse
acontecimento iniciou um desconforto diplomático, que se refletiu em transações
econômicas entre os dois países, onde a crise da divida externa de 1982 e a
imposição de barreiras argentinas para maior controle de produtos que entravam
em seu país, causou uma grande queda nas relações comerciais entre as duas
potencias. (Machado, 2000, p. 64.).
Em
1997 os Presidentes Fernando Henrique Cardoso (Brasil) e Carlos Manem
(Argentina), firmaram na Declaração do rio de Janeiro, o conceito de Aliança
Estratégica entre Brasil e Argentina, reforçando a integração entre as duas
maiores potências do MERCOSUL. Apesar desses esforços em manter-se uma relação
forte e solida entre os dois países muitos estudiosos afirmam que as relações
comerciais entre os dois foram muito abaladas com a constante desvalorização do
real em 1999.
“... as relações bilaterais Brasil-Argentina, são
severamente afetadas pela desvalorização do real em 1999. Domingo Cavallo
(então Ministro da Economia da Argentina, no mandato do presidente Fernando de
La Rua) se pronuncia radicalmente contra os efeitos da desvalorização do real,
por considera-la propositadamente contra a Argentina. Aliado a este cenário de
conflitos bilaterais, a deterioração social e a renúncia do presidente De La
Rua, em 2001, e Consequentemente influenciando negativamente as relações do
MERCOSUL.”
(Schweig, Evangelista, Niquel. 2009. p. 10).
Posteriormente
foram tomadas medidas para realização da manutenção dessa relação que ficou um
pouco desgastada, a exemplo do Consenso de Buenos Aires, assinados em 2003,
pelos presidentes Lula e Nestor Kirchner. E também em 2004 com a assinatura da
Ata de Copacabana. Ambas medidas com o intuito de reforçar a aliança dos países
para promover o bom andamento no próprio MERCOSUL.
Apesar dessa
constante busca do entendimento completo, em 2004 com o anuncio de medidas
protecionistas pelo presidente Kirchner, e suas severas criticas as ações da
Petrobras na Argentina, abalaram mais uma vez as relações bilaterais entre os
países. Entretanto, os países obtém ainda uma ótima sintonia em âmbitos
multilaterais, em negociações do MERCOSUL com os EUA, a União Europeia e também
com a OMC.
4. Restrições
comerciais entre os dois países.
As medidas protecionistas
tomadas pela Argentina não são novidade. Como visto nos tópicos anteriores, em
2004 o presidente Kirchner anunciou uma serie de medidas que num contexto
bilateral prejudicaram as relações entre os países, as medidas eram a adoção da
chamada Declaração Jurada Antecipada de Importação (DJAI) que se equivale a uma
restrição quantitativa de entrada de produtos no país, e também a utilização de
Licenças de Importação Não Automáticas (LNAs) que também são tipos de
restrições quantitativas. Antes em 2003 foram instalados acordos de monitoramento
no âmbito Brasil-Argentina.
Em 2012, o comércio de
importação de produtos brasileiros pela
Argentina teve uma grande redução em relação aos anos anteriores,
causado principalmente pela crescente demanda externa de energia, que fez com
que o país desse prioridade para a energia deixando em segundo plano outros
produtos finais manufaturados, a redução chegou a US$ 5 bilhões. Isso fez com
que o país tivesse exportasse menos produtos primários brasileiros reduzindo a
quantidade de intercambio monetário.
Essas ações não só
prejudicaram o Brasil, como também incomodaram outros países que vinham se
comprometendo comercialmente com a Argentina, levando os casos várias vezes até
a OMC resultando de aberturas de painéis de reclamação contra a Argentina. Como
é caso dos EUA, EU e Japão que acusam essas medidas dizendo que elas estão
afetando a importação de bens que no caso se referia a restrições à indústria
têxtil e de calçados. Segundo os países as medidas violam regras do comércio
internacional, estabelecidas em 1994 pela antiga GATT, que agora compõe as
regras da OMC. A reação da Argentina foi
repulsiva, questionando junto a OMC restrições feitas pela Espanha na
importação de biocombustíveis da Argentina alegando violações nos códigos e
leis da OMC.
Esse discurso não indicava um
posicionamento de concordância e para a retida dessas medidas argentinas, porém
com a pressão por parte dos países reclamantes a Argentina revogou um conjunto
de medidas. Do ponto de vista das restrições das importações essas retiradas
não passaram de meras formalidades, uma vez que as medidas retiradas compunham
um total de 10% das compras argentinas de outros países, ou seja, não foi de
grande contribuição para a resolução dos problemas.
No Brasil, o “prejuízo” é
maior devido ao fato de suas relações serem de suma importância para o
crescimento de ambos os países. “A parceria está enfrentando uma fase
turbulenta devido ao interesse de ambos os países em defender o setor externo
em meio à crise internacional”( Economia
Terra)
Essa turbulência citada
acima, se da num momento muito critico, onde a crise se instaurará desde 2008,
e a importância de incentivos e parcerias corretas para que haja a ruina
diplomática e econômica dos países envolvidos, principalmente Brasil e
Argentina. O comentário a baixo ilustra bem essa necessidade de mudança em
âmbito bilateral entre os países.
“A relação entre
Brasil e Argentina só complica. Eles querem dificultar mais a venda de carros
brasileiros lá, que é permitida pelo acordo automotivo. O Brasil compra muito
da Argentina e vende manufaturados. Mas toda hora há uma dificuldade, como o
fim da licença prévia de importação. Por ser o parceiro preferencial em uma
zona de livre comércio, deveria ter vantagens.
Além da revisão do acordo automotivo, a Argentina
quer tratar como uma questão de Estado, a ser discutida entre as duas
presidentes, o investimento de uma empresa privada. A Vale tem uma mina de
potássio lá. Fez investimentos, mas aumentaram os custos. A presidente do país,
Cristina Kirchner, quer que o governo brasileiro, sócio da Vale e não o dono,
de alguma forma, force a empresa a investir.
Antes de reuniões como essa em que participarão a
presidente Dilma Rousseff e Cristina Kirchner, ficamos sabendo de muitas
reivindicações da Argentina, e não do Brasil, que vai lá só para fazer
concessões, concordar, oferecer financiamento do BNDES. O Brasil não tem nada a
reclamar? Na relação com a Argentina, tem que ser o "doador
universal"? Ou deveria ser uma relação mais equilibrada?
Diante dos sucessivos impasses, poderia ser
construído um arcabouço institucional que permitisse ao Brasil fazer acordos
comerciais com outros países sem passarem pelo MERCOSUL. O país não pode ficar
‘amarrado’, por causa da Argentina, que está querendo fechar cada vez mais o
país.”
(LEITÃO, Miriam, texto retirado da internet)
Esse pensamento vai de
encontro com as declarações feitas pelas atuais presidentes Dilma Rousseff e
Cristina Kirchner, que tomam cunho otimista e promissores para resoluções.
Durante jantar em homenagem a presidenta brasileira em Buenos Aires, ela
comentou que “As relações entre Brasil e Argentina são fortes e
inabaláveis. Baseiam-se na certeza e na vontade política que nós sempre
expressamos de que juntos faremos sempre muito mais e muito melhor. Os últimos
dez anos mostram que a aliança Argentina e Brasil tem sido fundamental não só
para nossos dois países. Essa relação, essa aliança tem sido um fator de
progresso e estabilidade para América do Sul e para a América Latina”.( Blog do
Planalto)
Esses pensamentos refletem um
contexto histórico entre os dois países, pautado por cooperação e desavenças,
entendimentos e desentendimentos. Uma perspectiva futura é de mais contradição
ao menos até o fim da crise internacional que afetou e fragilizou muito a
Argentina. A julgar pelo histórico de governança Kirchner, mais complicações
são previsíveis. Entretanto pode-se considerar também, em bases históricas, que
as relações bilaterais entre os dois países vão encontrar uma saída para que o
bom relacionamento se torne comum, como já foi apresentado nos tópicos
anteriores, onde Nestor Kirchner e Lula se desentendiam em âmbito bilateral
mais tinham boa sintonia no multilateral.
5. Considerações finais
Neste Trabalho foram
apresentados conceitos históricos de diplomacia e também de uma ótica bilateral
nas relações comerciais entre Brasil e Argentina. Analisando a entrada no
MERCOSUL e desenvolvimento proposto pelo bloco, juntamente com um conceito de
evolução histórica que apresentou a mistura de rivalidade e cooperação entre os
países. As barreiras impostas pela argentina sempre foram um problema para as
relações Brasil-Argentina. A personalidade forte e complexa do governo Kirchner
se estende nas tomadas de decisões, que interferem no comercio mundial e no
comercio bilateral entre os dois países. Ao final, chegamos à conclusão de que
é importante que haja uma mudança estrutural no sistema de restrições da
Argentina para uma melhor aderência no mercado internacional em si. Porém de acordo com declarações de ambas as lideres
dos dois países, há um otimismo pautado pelo dialogo entre as duas potencias. É
entendível que as relações bilaterais entre os dois países continuarão em um
jogo de “vai-e-vem”, levando de forma complexa e indefinida essas relações que
de um lado toma uma personalidade mais forte e difícil e do outro que toma um
contexto mais pacífico e apaziguador.
Criando um estranho entendimento entre si.
Referências
CASSAR, Mauricio. Economia e Negócios.
Campinas: Universidade Paulista. Curso de Relações Internacionais, 2013. Notas
de aula.
JUNIOR, José Tavares de Araujo. IEDI Instituto de Estudos Para O
Desenvolvimento Industrial: Argentina, Brasil E O MERCOSUL. 2011. 17f.
Artigo.
LEITÃO, Miriam. Relação Brasil e Argentina tem que mudar.
Internet. Radio CBN, 11 mai 2013. p 1
Entrevista.
PINTO, Júlio Pimentel. Brasil X Argentina quase um jogo de compadres.
Disponível em: < http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/brasil_x_argentina_quase_um_jogo_de_compadres.html
>. Acesso em: 15 mai. 2013.
SANDRO. Relações entre Brasil e Argentina são fortes e inabaláveis,
afirma Dilma. 25 abr. 2013. Disponível em: < http://blog.planalto.gov.br/relacoes-entre-brasil-e-argentina-sao-fortes-e-inabalaveis-afirma-dilma/>.
Acesso em: 15 mai. 2013.
Bibliografia
Consultada
MACHADO, João Bosco M. MERCOSUL: processo de Interação: Origem,
evolução e crise. 1. ed. São Paulo: Aduaneiras, 2000. 249 p.
MINGST, Karen A. Essentials of International
relations . 2. ed. New York N.Y: W.W Norton & Company, 2003. 314 p.
VASCONCELLOS, Marco Antônio; GARCIA,
Manuel Enriquez. Fundamentos de Economia. São Paulo: Saraiva,
1998. 240 p.
[1] UNIP – Instituto de Ciências Sociais e
Tecnologia. Campus Magalhães Teixeira – Campinas, SP. Bacharelado em Relações
Internacionais, 1º Semestre noturno, sala D001. Gabriel Thadeu Vitorino de Oliveira
– RA B67AAG-0 – E-mail
gabrielvitorino1993@gmail.com
[2] UNIP -
Instituto de Ciências Sociais e Tecnologia. Campus Magalhães Teixeira –
Campinas, SP. Professor (MsC, Dr, Esp) Mauricio Cassar.
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